Registe em poucos segundos a nossa newsletter e receba todas as novidades.

Acrilsports

#GetsYouFurther

Chega o europeu da modalidade mais inclusiva do planeta

Inicialmente marcado para 2021, o mundial de atletismo decorreu em Oregon (EUA) em julho, devido à pandemia. Essa circunstância cria caso raro com duas grandes competições no espaço de um mês com os Europeus de Munique de 15 a 21 de agosto. Oregon surpreendeu e Munique prepara-se para aquecer ainda mais o verão

Inicialmente marcado para 2021, o mundial de atletismo decorreu em Oregon (EUA) em julho, devido à pandemia. Essa circunstância cria caso raro com duas grandes competições no espaço de um mês com os Europeus de Munique de 15 a 21 de agosto. Oregon surpreendeu e Munique prepara-se para aquecer ainda mais o verão

São acontecimentos que pertencem à memória coletiva do nosso país: Rosa Mota e Carlos Lopes a atravessarem a meta em glória e todo um país em fervor. Quantas crianças, muitas delas de férias, na praia, não acordavam de madrugada para, acompanhadas pelos pais, ver na tv ou ouvir na rádio o percurso glorioso desses símbolos maiores do atletismo português?

O fundo foi, durante a maior parte da história do atletismo português, a coqueluche da modalidade. Fernanda Ribeiro, Fernando Mamede ou António Pinto, entre outros(as) atletas consolidaram o trabalho feito no sector levando a bandeira portuguesa ao lugar mais alto dos pódios internacionais. Mamede vai ainda surgir adiante aqui neste texto pelas suas características peculiares.

No final dos anos 90 houve uma mudança. O desporto escolar e consequente captação de talentos, a construção de novas pistas que descentralizaram o acesso à modalidade, a especialização de treinadores e um estatuto de alta competição melhorado fez com que outras especialidades ganhassem palco.

Na verdade, a ideia de atletismo era redutora. “Atletismo é correr, ponto”. Nada mais errado. A mudança de paradigma foi diretamente proporcional à mudança de perceção que se tinha sobre a modalidade. Para além do acesso mais democratizado a material de treino especializado.

Quem nunca viu uma jornada da modalidade, seja ao vivo seja pela televisão, não consegue alcançar a multiplicidade de movimentos e explosão de cores que acontecem na pista e no relvado. 

Velocidade, meio fundo, fundo, saltos, lançamentos, barreiras, obstáculos e marcha. Tudo no mesmo local, tudo num ritmo que não dá espaço a tempos monótonos, numa dança perfeitamente sincronizada.

Para quem pratica, é a modalidade mais inclusiva. Há uma especialidade para cada um e cada uma. É, também, uma excelente modalidade de iniciação no desporto porque ensina a correr, a andar, a usar o corpo da forma mais correta. E não é nada simples. Saber correr é fruto de muito treino e disciplina.

Na velocidade nota-se a excentricidade, corpos que latejam prontos a disparar. No martelo, no dardo e no peso, gigantes tomam posição para expulsar uma energia cósmica. Nas barreiras, um passo mal medido, nas décimas de segundo de que dispõem para decidir, deitam por terra o trabalho de meses. Nos saltos imagina-se o infinito e foge-se de tudo o que é terreno.

Carlos Calado, Rui Silva, Naide Gomes, Francis Obikwelu, Nélson Évora e agora Pablo Pichardo são nomes que marcam a nova vida do atletismo português. Pode encontrar todos os resultados do nosso atletismo aqui e, quiçá, começar a estabelecer objetivos…

Oregon foi de ouro para Pichardo 

Com uma das maiores comitivas de sempre em mundiais, Portugal apresentou-se com 23 atletas. E apesar de um regresso com apenas uma medalha de ouro, as perspetivas para Munique ficaram mais elevadas. 

Uma medalha de ouro, quatro finalistas e quatro semifinalistas. Para além de Pablo Pichardo, que venceu a competição com um salto estrondoso de 17.95 metros. Estrondoso mas não suficiente ainda para a ambição do triplista que quer o recorde do lendário Jonathan Edwards que em 1995 saltou 18.29 m.

Para além de Pichardo também Auriol Dongmo, com o quinto lugar no lançamento do peso, Liliana Cá, com o sexto no disco e Patrícia Mamona, com o oitavo no triplo foram finalistas. Já Ana Cabecinha (9ª – 20 km marcha), Tiago Pereira (10º – triplo), Inês Henriques (13ª – 35 km marcha), e Evelise Veiga  (15ª – comprimento) foram semifinalistas.

Os Campeonatos do Mundo de Oregon 22 foram palco de grandes resultados e de uma despedida perfeita e imprevista 

A norte americana McLaughlin deixou o público boquiaberto ao correr os 400 metros barreiras em 50.68, batendo o seu próprio recorde do mundo e com uma marca que lhe daria… o sétimo lugar nos 400 metros planos!

Uma das maiores atrações era o sueco Armand Duplantis, no salto com vara. Com apenas 22 anos, o sueco bateu o recorde mundial com 6.21 m e levou finalmente o ouro mundial para casa, depois de em Doha 19 “apenas” ter conseguido a prata. 

Quem não se lembra do momento de Tóquio 2020 em que dois saltadores em altura celebram o facto de ambos serem medalhados com ouro olímpico? Pois bem, desta vez Mutaz Barshim (Catar), com 2.37m, venceu o ouro e teve como impressionante adversário o coreano Woo Sanghyeok, com 2.35m. É o terceiro ouro para Barshim. 

Na velocidade o destaque foi para o regresso dos EUA aos três lugares do pódio nos 100 metros, a prova rainha. 

Um aparte: se nunca foi ao estádio ver uma prova de 100 metros nós tentamos explicar. A partir do momento em que os (as) atletas se deslocam para os blocos o silêncio no estádio, cheio, é ensurdecedor. Já nos 9, 10 segundos de prova tudo explode, com uma exceção: quem corre nada ouve. Nesses segundos há muitos pormenores que não podem falhar e a concentração é total.

Assim, pela primeira vez desde 1991, e depois de um período de primazia jamaicana, com Usain Bolt como figura máxima, Fred Kerley, com 9.86, Marvin Bracy e Trayvon Bromell, ambos com 9.88, dominaram a prova mais rápida do atletismo em Hayward Field.

A venezuelana Yulimar Rojas venceu o seu terceiro título mundial no triplo salto com 15.47m, 58 cms a mais que a sua adversária mais próxima, a jamaicana Shanieka Ricketts, medalha de prata. 

A idolatrada Shelly-Ann, velocista jamaicana que foi campeã dos 100m em Berlim 2009, Moscovo 2013, Pequim 2015 e Doha 2019, tem agora mais uma medalha de ouro em campeonatos mundiais com estrondosos 10.67s.

Já Noah Lyles, nos 200m, foi desafiado pelo jovem Erriyon Knighton, que aos 18 anos correra em 19.49s no Mundial de sub20. Espicaçado, Lyles acabaria por bater o recorde americano com 19.31s, ultrapassando os 19.32s do eterno Michael Johnson. 

As competições de atletismo acabam sempre com a adrenalina em índices máximos com as estafetas de 4×100. As estafetas foram o pretexto perfeito para a despedida da enorme Allyson Felix. No primeiro fim-de-semana a americana ajudaria a equipa a vencer a estafeta 4×400 e voltou para casa. Eis se não quando acabaria por ser chamada de volta para ajudar a estafeta nacional de 4×100, garantindo mais uma medalha de ouro.

Agora é entre europeus

É a segunda vez que Munique recebe os europeus de atletismo e há vários atletas a seguir atentamente. Desde logo o já consagrado sueco Duplantis, na vara, a alemã Malaika Mihambo no salto em comprimento, o francês Kevin Mayer no decatlo e o surpreendente britânico Jake Whigtman que venceu o campeão olímpico Jakob Ingebrigtsen nos 1500m em Oregon com uma corrida taticamente exemplar. Wightman correrá os 800m em Munique.

A também britânica Dina Asher-Smith, bronze nos 200m de Oregon, vai defender os seus títulos europeus dos 100, 200 e 4x100m. Há alguns atletas que tentarão a “vingança” em Munique, depois de desilusões em Oregon como o italiano campeão Olimpico Marcell Jacobs (100m), Karsten Warholm (400m barreiras) e Gianmarco Tamberi (salto em altura).


Uma palavra portuguesa a dizer

Oregon foi há um mês, o que significa que os ciclos de forma para Munique poderão ser completamente diferentes. Muitos(as) serão os(as) atletas da comitiva portuguesa de 43 elementos que terão apostado mais nestes europeus. 

Assim, é expectável ver melhores desempenhos por parte de crónicos nomes candidatos a finais e medalhas. Pablo Pichardo é, para além de uma das maiores figuras em Munique, um dos que tentará melhorar o seu desempenho.

Tal como Patrícia Mamona, vice-campeã olímpica de Tóquio’2020 no triplo, Auriol Dongmo no peso e Liliana Cá no disco. Cada uma destas atletas entra em pista com os olhos postos nos lugares mais cimeiros.

São 43 atletas, a maior comitiva de sempre em europeus. Para muitos é um passo importante na aprendizagem. A presença em grandes competições é fundamental para formatar comportamentos que maximizem a performance. 

Um centímetro a mais na corrida para o salto, motivada pelo ambiente efervescente de uma grande competição, multiplicado por várias passadas, é meio caminho andado para saltos nulos. Uma desconcentração nos blocos devido à pressão, um movimento antes do tiro dá desqualificação. Uma descolagem precoce nas provas de meio fundo e fundo pode ser fatal. Tudo isso se treina enquanto se compete. Cada um dos atletas presentes sairá de Munique melhor apetrechado para o futuro. 

A Vermelho o Destaque 

De notar que, pela primeira vez, Portugal estará representado por um saltador em altura (Gerson Baldé), um lançador de dardo (Leandro Ramos) e ainda uma estafeta de 4×400 metros.

O atletismo não é, apesar de uma certa noção generalizada, uma modalidade previsível. Ainda mais com esta raridade de duas grandes competições em apenas um mês. Ciclos de treino diferentes, picos de forma planeados com maior complexidade, frustrações e motivações ainda efervescentes, tira teimas para resolver. Entre os e as 43 atletas que Portugal leva a Munique há sonhos que se vão concretizar, objetivos que se vão falhar, surpresas e desilusões. Tudo isto se transpõe para todos os(as) participantes na competição, de todos os países presentes. 

E aqui voltamos a Fernando Mamede. Mamede esteve presente em três Jogos Olímpicos, foi recordista mundial dos 10 000 metros mas nunca conseguiu vencer as grandes competições. Mamede “bloqueava” psicologicamente e não conseguia explanar todo o seu poderio. 

Uma lição ou um aviso. Caso para dizer que vencerá quem correr mais rápido, for mais forte e saltar mais alto mas também quem melhor usar a pressão a seu favor.

O Nosso Grupo